Sem Pé e Sem Cabeça
14/09/2007 16h40min

Marco di Aurélio

Sou o silêncio e a zoada

nas razias do sertão

sou os dedos de uma mão

do vento sou redemoinho

do braço sou o seu punho

do aboio sou a toada

das portas, sou a fechada

das pedras sou o lajedo

da carreira eu sou o medo

do grito a presepada...

 

Numa noite enluarada

eu sou uma assombração

das veias do coração

eu sou a que faz entrada

e a cada resfolegada

dou passos de sete léguas

corro mais que vinte éguas

de jeito agalopado

escada só de sobrado

esteio só de pau-ferro...

 

Livrai-me de meu inferno

minha santa abençoada

me tire dessa calçada

me bote logo pra dentro

que já estou sentindo o vento

montado na meia-noite

me livre desse açoite

cruel e desventurado

me leve pro outro lado

dormindo que nem um anjo

ouvindo baixinho um banjo

com cordas de caroá

debaixo dum juazeiro

na sombra do mês de abril

 

Me diga, quem foi que viu

enfieira como essa

dita assim com pouca pressa

sem ter pé e nem cabeça

me diga, tem quem mereça

ouvir uma conversa dessa?





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